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Alfabetização na Idade Certa: Estamos alcançando essa meta?

Na semana em que se “comemora” o Dia Mundial da Alfabetização (08 de setembro), data instituída pela UNESCO, com o objetivo de salientar a importância da leitura e da escrita como direitos fundamentais, ferramentas de dignidade, cidadania e inclusão social, é fundamental pararmos para a realização de algumas reflexões importantes.

No Brasil, estabeleceu-se como meta a alfabetização ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, ou, como dizemos: na IDADE CERTA. Mas o que isso significa na prática? Estamos alcançando essa meta? Quais desafios ainda temos que superar?

Considerando os estudos sobre desenvolvimento infantil e os conhecimentos acumulados pelas pesquisas na área da alfabetização, é possível afirmar que os primeiros anos de escolarização constituem um período especialmente importante para a aprendizagem da leitura e da escrita. Isso não significa, entretanto, estabelecer uma idade biológica rígida para que todas as crianças aprendam a ler e escrever, mas reconhecer que, ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, espera-se que as crianças tenham assegurado o direito de se apropriar do sistema de escrita alfabética e avançar no desenvolvimento das práticas de leitura e escrita.

Neste ponto, há de se fazer uma ressalva. Como a leitura e a escrita não são capacidades inatas dos seres humanos, mas práticas culturais que precisam ser aprendidas e desenvolvidas em contextos sociais, essas aprendizagens não acontecem sozinhas. Elas dependem das experiências da criança com a linguagem escrita, da interação com outras pessoas e, especialmente, da mediação pedagógica intencional.

Essa afirmação reforça a importância da escola e das práticas pedagógicas mais assertivas para o desenvolvimento dessas aprendizagens. Dessa maneira, não há processo de alfabetização escolar sem a presença de um professor alfabetizador qualificado, capaz de compreender como as crianças aprendem, identificar suas necessidades e organizar intervenções pedagógicas intencionais e adequadas.

E é justamente aqui que começam os desafios para o alcance dessa meta. Segundo os resultados de 2025 do Indicador Criança Alfabetizada, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil alcançou a marca de 66% dos estudantes da rede pública alfabetizados ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, superando a meta nacional de 64% estabelecida para aquele ano.

Mas o que isso representa na prática? O resultado revela um avanço importante, mas também significa que aproximadamente uma entre três crianças ainda não atingiu o padrão nacional de alfabetização utilizado pelo indicador. E isso abrem algumas perguntas essenciais: Quem é essa criança? Quais são suas fragilidades? A qual grupo étnico e/ou raça/cor pertence?

O que se tem observado é que as fragilidades na formação inicial dos professores constituem um dos desafios a serem superados, pois, para alfabetizar, são necessários conhecimentos teóricos e técnicos. A formação inicial precisa garantir conhecimentos sobre os processos de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita, mas, em muitos casos, mostra-se insuficiente para transformar esses conhecimentos em práticas pedagógicas consistentes com as necessidades que a diversidade da sala de aula apresenta na atualidade.

Vimos que a necessidade de se alfabetizar as crianças na idade certa chega ao mesmo tempo que se intensifica a formação continuada em serviço para os professores. Como todo professor consciente de suas obrigações, para não deixar de realizar sua função, ele pode acabar recorrendo ao próprio caminho de alfabetização ou seguindo um método que “ouviu dizer” que funciona melhor. Eis o segundo desafio: a superação da disputa de métodos de alfabetização.

Com certeza, precisamos conhecer os métodos e as diferentes abordagens de alfabetização produzidos e desenvolvidos até o presente momento. Porém, mais do que aderir a uma disputa entre métodos, precisamos compreender os fundamentos que orientam o processo de alfabetização e, principalmente, saber como as crianças aprendem e quais intervenções pedagógicas podem favorecer essa aprendizagem.

Não vou entrar em discussões teóricas. O essencial é que saibamos que a aprendizagem se fortalece quando aquilo que se aprende pode ser relacionado a conhecimentos, experiências e situações que façam sentido para a criança. Então, para aprender a ler e escrever, é importante que a criança compreenda que a leitura e a escrita são práticas que têm função social e estão presentes em sua vida para além da sala de aula, para além da escola.

Daí, o trabalho com textos reais e com os diferentes usos sociais da linguagem escrita faz esse papel, pois a criança, no contato com a diversidade de gêneros textuais que circulam socialmente, pode compreender diferentes razões pelas quais precisa aprender a ler e escrever.

Como tenho feito com certa frequência, chamo a atenção para alguns aspectos. Primeiro, a criança ingressa no Ensino Fundamental aos seis anos e não mais aos sete. Isso significa que temos recebido, nas turmas de 1º ano, crianças em uma determinada fase de seu próprio desenvolvimento infantil, com necessidades de aprendizagem próprias dessa etapa, que precisam ser consideradas no planejamento pedagógico e que contribuem para a construção dos conhecimentos necessários à compreensão do Sistema de Escrita Alfabética (SEA).

Entre esses conhecimentos, destacam-se o desenvolvimento da linguagem, a compreensão da função simbólica da escrita e a consciência fonológica, entre outros. Esses aspectos não devem ser entendidos como etapas isoladas ou como pré-requisitos rígidos para a alfabetização, mas como dimensões do desenvolvimento e da aprendizagem que podem ser favorecidas e trabalhadas intencionalmente pela escola.

Outro aspecto é a diferença entre aprender a escrever e aprender apenas a registrar graficamente letras e palavras com o lápis em um papel. Nessa fase do desenvolvimento infantil, a criança pode avançar na compreensão do funcionamento do sistema de escrita alfabética e na construção da base alfabética, porém suas habilidades motoras finas, como a pega em pinça, ainda estão em desenvolvimento, por isso a indicação do uso de letras móveis para aprender a “escrever”, ou seja, aprender a utilizar os códigos (letras).

Por isso, é importante que as práticas escolares também contemplem experiências diversificadas que favoreçam o desenvolvimento motor, por meio de brincadeiras, desenho, manipulação de diferentes materiais riscantes e utilização de variados suportes e instrumentos de escrita. É preciso, portanto, compreender que uma dificuldade no registro gráfico não significa, necessariamente, uma dificuldade na compreensão do sistema de escrita.

Passemos, então, para o desafio de superar a simples aquisição da base alfabética em direção a uma alfabetização que possibilite o uso cada vez mais autônomo e significativo da leitura e da escrita. O que geralmente se observa é uma prática docente que, ao perceber que a criança já compreendeu aspectos fundamentais do SEA, passa a ofertar atividades de cópia de textos (nas diferentes áreas do conhecimento), essencialmente da lousa – seja ela um quadro negro ou digital – e a completar exercícios no livro didático.

A pergunta que cabe neste ponto de nossa reflexão é: como as crianças irão aprender a produzir textos e a ler com fluência, compreensão e posicionamento crítico diante dos textos se não lhes são ofertadas propostas de atividades condizentes com tais aprendizagens?

A alfabetização não se encerra na compreensão do funcionamento do sistema de escrita alfabética. É preciso que a criança avance também na leitura, na compreensão, na produção de textos e na utilização da linguagem escrita em diferentes situações sociais. Por isso, ensinar a ler e escrever não pode significar apenas ensinar a decodificar, copiar ou registrar palavras e textos. Significa criar condições para que a criança participe, progressivamente, de práticas reais de leitura e escrita.

Não poderia encerrar sem registrar um desafio que extrapola a dimensão escolar e se relaciona diretamente com a necessidade de melhoria das políticas públicas. Ainda precisamos superar as questões de infraestrutura das escolas; o acesso aos bens culturais por todos os alunos; a valorização profissional por meio de salários dignos e não apenas por meio de gratificações; a redução do número de alunos nessa etapa da escolarização.

Por fim, vou compartilhar que as minhas reflexões me trouxeram para um lugar que sempre gostei, mas ainda não tinha planejado: o lugar de escritora. O primeiro livro escrito por mim é justamente o resultado de minhas observações sobre como as crianças se alfabetizam e como os professores podem atuar nesse processo.

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